Uma semana após a posse, a possibilidade de um acordo entre China e Estados Unidos entra no radar. O agronegócio brasileiro sentirá efeitos caso a hipótese se confirme.
Confira um trecho da conversa que tive com o sócio-fundador da Liberta Investimentos, Leandro Ruschel:
O que mais te chamou atenção nos primeiros dias do governo Trump?
O que mais chama atenção é a intensidade do governo. A gente viu mais de 150 ordens executivas sendo assinadas por Trump, um direcionamento muito claro dos objetivos. A gente já viu uma ação muito forte na fronteira, que era uma promessa de campanha em relação à contenção da imigração ilegal.
O que chamou atenção também foi a falta de uma postura mais agressiva em relação à questão das tarifas. Esperava-se que, já no primeiro dia, ele impusesse tarifas. Ele sugeriu a imposição dessas tarifas, mais especificamente contra México e Canadá, mas disse que seria algo para daqui a algumas semanas e não apresentou nenhum plano específico ou sinalização mais clara de como seria essa tarifação em relação à China.
Há uma sinalização de que Trump pode taxar a China em 10% a partir de 1º de fevereiro. Essa é uma taxação bem inferior à que ele havia anunciado antes da posse. Você acredita nessa taxação de 10%? Será superior a isso? Que pistas você tem sobre qual será o modelo dessa guerra comercial?
Me parece que as taxações são utilizadas como uma alavanca de negociação para alcançar acordos mais interessantes sem precisar impor tarifas altas. E me parece que esse é o caminho em relação à China. Do ponto de vista do agro brasileiro, vejo que tem dois caminhos bem diferentes que podem ser seguidos pelo governo americano. Um deles acaba beneficiando o agro brasileiro, e o outro pode prejudicá-lo.
Se for alcançado algum acordo com termos interessantes para os dois lados, como menor tarifas para a China e os Estados Unidos exportando mais — ou de alguma forma equilibrando a balança comercial — isso pode significar um aumento da compra de soja americana pela China. Isso, por sua vez, seria ruim para o agro brasileiro. Por outro lado, se nenhum acordo for alcançado e Trump decidir impor mais tarifas, isso pode levar a uma redução das compras de soja e outros produtos por parte dos chineses.
Acredito que estamos vivendo um momento de muita incerteza. Não há como afirmar qual será o caminho. Há uma série de boatos sobre a possibilidade de Trump chegar a um nível de acordo sem precedentes com a China, o que seria uma grande surpresa. Isso é algo que tem circulado em Washington no momento; já ouvi de duas fontes diferentes. Mas é difícil saber, porque essas negociações são bastante complexas. Sabemos que, há muito tempo, os americanos tentam algo desse tipo, há uma desconfiança mútua. Teremos que esperar para ver, pois não há como ter certeza no momento.
Esse acordo, você acha que envolveria, além da soja que você citou, outros produtos da pauta agropecuária, se ele acontecer?
Acredito que, se esse acordo acontecer, será um acordo amplo e deve envolver toda a lógica de transações entre os Estados Unidos e a China. Mais do que isso, pode ser um acordo que inclua questões geopolíticas. Em duas oportunidades, algo que chamou minha atenção foi que, nas últimas vezes em que Trump falou sobre o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, ele mencionou a importância de trazer a China para a mesa e de a China ajudar a alcançar alguma solução.
Parece que há também um respeito mútuo entre o Trump e o líder chinês, o ditador, Xi Jinping, e isso pode ser usado para buscar algum acordo. Sabemos que as relações entre países dependem muito das relações entre seus líderes. Eu não ficaria surpreso se acontecesse um acordo em maior escala que envolva mais aspectos além de toda a pauta comercial dos dois países, incluindo questões geopolíticas que são mais urgentes no momento.